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riscos_e_rabiscos

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Hipocrisia Familiar

Rockwell, Norman, A Family Portrait

 

 

Lembram-se daquele post em que eu vos contei que fracturei o pé no casamento da minha prima? Só não vos contei que toda a família se preocupou comigo menos ela. Não, ela não foi em lua-de-mel logo a seguir ao casamento. Por uma conveniência qualquer, só foi quase uma semana depois para as Maldivas. Mas isto é só para vos dizer que ela nem uma SMS me enviou a perguntar se estava melhor. Quando regressou, lá deu um saltito aqui a casa para ver como eu estava. Até porque agora parecia mal… Afinal a casa dela era na rua da minha mãe, do outro lado do passeio, 3 prédios acima.

 

Ontem veio aqui encomendar-me alguns produtos que eu vendo da Yves Rocher. Lá escolheu, o mais barato possível, e mesmo assim sempre a hesitar nos preços. Decidiu pedir um gel de banho, para uma prima nossa, cujo valor é de 2.99€. Até aqui tudo bem se ela fosse outra pessoa, já vão perceber porquê.

Estive a explicar-lhe alguns detalhes dos produtos e às tantas faz-me o seguinte comentário: “Não posso gastar dinheiro porque as coisas este ano estão muito más…” Deu-me um nojo descomunal, uma revolta nas entranhas mas mantive-me calada.

Então as coisas estão muito mal para ela que comprou uma casa de quase 50 mil contos e não vendeu a anterior, cujo marido ganha montes de dinheiro pois é dono de um gabinete de contabilidade, que tem a casa de solteiro do marido arrendada, que já comprou duas casas a pronto com o meu tio para alugar, que se abastece na mercearia da mãe a custo zero, que tem uma sogra que é um amor de pessoa e que não sabe o que fazer para agradar a minha prima por isso dá-lhe tudo, que é efectiva numa multinacional e não ganha nada mal?

 

Então que hei-de dizer eu?! Que andei de cavalo para burro, graças às sucessivas alterações dos concursos de docentes? Que suo as estopinhas em busca de emprego, que graças a Deus tenho conseguido à minha custa? Que tenho dois pais reformados com uma “fortuna” e a quem dou uma ajuda com o meu mini-ordenado? Que me farto de lutar, pois não me cai nada no colo, e nunca baixo os braços? Cinismo, não! Não suporto.

 

E ainda comentou comigo que não precisava de comprar muita coisa para oferecer pois a sogra o ano passado comprou prendas a dobrar para que a minha prima as pudesse oferecer, estão a perceber? Ou seja, a minha prima o ano passado não gastou dinheiro em prendas e este ano muito pouco. Nem em prendas nem em nada porque lhe dão tudo. Nunca precisou de fazer nada para ter o que quis. Sempre lhe caiu tudo no colo num estalar de dedos. Só é pena a minha prima ter tanto e não partilhar com os outros, ter tanto e ainda cravar os outros, ter tanto e ser tão somítica com tudo, ter tanto e não ajudar ninguém. Acha sempre que aquele cêntimo que gastou foi mal gasto nem que seja algo que ela precise para viver.

 

O cúmulo do cinismo e hipocrisia foi o aniversário da filha dela. Andou a espalhar aos sete ventos que não fazia nada no aniversário da filha por causa disto e daquilo (já não me lembro dos argumentos). A mim não me fazia diferença pois não fazia questão de ir, ia mais por uma questão de cerimónia e respeito pelos meus tios.

Vim a saber, depois, que fez uma festa de arromba na vivenda da sogra mas só convidou os amigos cheios de dinheiro, a família do marido e as tias ricas solteironas que um dia lhe irão deixar toda a fortuna. A ela e ao irmão pois são os únicos sobrinhos das tias ricas. Convém dar graxa também.

 

Acho que estas coisas são de muito mau gosto. Infelizmente, ela escolhe as pessoas pelo seu extracto bancário e pelo interesse que elas possam ter. Nós, as primas, pertencemos à parte pobre da família. Não nos enquadramos, economicamente, naquele meio. E ainda bem pois são só cromos horrendos e broncos.

Não gosto de fazer distinção entre pessoas nenhumas. Sempre que faço uma festa convido as minhas 3 primas direitas, com as quais fui criada (nas quais esta está incluída) e os meus amigos que são pessoas cultas, de mentalidade evoluída e muito bem educados. São pessoas afáveis, simpáticas e com quem se pode ter uma bela conversa. Não é o estatuto socio-económico que estabelece os laços de amizade mas sim a empatia, o amor e as vivências em comum.

Pronto, acabei o meu desabafo!